18 de abril de 2015, sábado

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"Alice, o que você achou de valioso na lama hoje?" 
"Olha aqui, mãe!" 
Esse era o "nosso" bordão há um tempo atrás. Atrás da minha casa, tem um terreno nosso. E eu adorava mexer horas e horas na lama de lá.  Logo depois, eu me levantava, toda suja e enlameada, com as unhas podres e a jardineira verde, marrom. Entrava em casa com os valiosos tesouros perdidos naquela lama. Uma vez, foi uma tomada. Outras, clipes de papel enferrujados. Às vezes, achava cabos abertos com os fios expostos. Umas duas vezes, encontrei panos podres. Em todos os dias, encontrava pedras. Teve até um dia em que encontrei um chinelo (três meses depois, achei o outro). Bem, nem eram tão valiosos assim. Afinal. o que eu ganhei com isso? Muito mais do que uma caixa com objetos limpos pela metade - que guardo até hoje. Eu ganhei lembranças, momentos e liberdade. Talvez seja por isso que eu virei uma rebelde sem causa aparente.
Embora já expliquei que minha mãe é muito rígida, ela sempre foi liberal. Um pouco menos que eu, mas foi. Ela não me impedia de jogar futebol "por ser menina". Nunca tentou me forçar colocando-me no ballet, como muitas amigas dela aconselhavam. Nunca me mandou amarrar o cabelo nem me chamou de dama. Minha mãe nunca me disse para parar de correr, ou ia me machucar. Pelo contrário, ela me incentivava.
Fui criada com um toque de diferença de minhas coleguinhas na escola. Nunca vi graça em fazer ginástica rítmica nem de ficar beijando pôsteres de atores famosos - que, por sinal, eu nem sabia o nome. Preferia mesmo catar insetinhos e sapos no parquinho da escola. "Eca, Alice, deixa de ser nojenta". Eu ouvia isso o tempo todo da Jéssica. Mas não conseguia ligar. Hoje entendo que Jéssica foi criada numa caixa, com um tipo de pensamento limitado. Já aqui, com minha família, é bem diferente. Eu nasci livre, fora da caixa que é a sociedade.
Eu cresci - e cresço - numa casa onde é permitido sonhar alto. Numa casa onde ser estranho é privilégio. Numa casa com imensa liberdade. Numa casa estranhamente feliz. Numa casa livre

6 comentários:

  1. Não sei porque ainda me surpreendo. Você escreve tão bem, Alice! Garanto que teria um ótimo futuro sendo escritora.
    Chu

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    1. Obrigada, Sr. Anônimo-super-fofo ♥
      Beijos ~

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  2. Então, acredito eu, você tem muita sorte de viver com uma familia tão livre. Familias assim ainda não são tão comuns hoje em dia!
    Kisses ~ http://auwss.blogspot.com.br/

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  3. Gostei bastante do seu texto! A melhor coisa é ser livre, principalmente na infância.

    ~September Rains

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